quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Fora da Igreja não há salvação!

“Lançai fora a ímpia e funesta opinião de que, em qualquer religião,

é possível chegar ao caminho da salvação eterna” (Papa Pio XI)

“E não há salvação em nenhum outro. Porque sob o céu, nenhum outro nome (Cristo) foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos”.(Actos, 4,12)
“De novo o Demónio O transportou a um monte muito alto, e Lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse: Tudo isto te darei, se prostrado, me adorares. Então Jesus disse-lhe: Vai-te Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a Ele só servirás”. (São Mateus 4,8-10)
Pelo texto, temos duas conclusões:
1. Todos os reinos do mundo serviam a Satanás.
2. Só é possível adorar a um só Deus.
“A quem haveremos de ir, Senhor? Só vós tendes palavras de vida eterna” (São João,6, 68)
“Ou que o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demónios e não a Deus. E não quero que tenhais sociedade com os demónios; não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demónios: não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demónios”. (I Cor. 10, 19,22)
Ao longo da história da Igreja, houve sempre o dogma de que só há uma Igreja verdadeira, e fora dela não há salvação. Sendo assim, não há liberdade religiosa, de crença, de culto.
Olhemos para estes ensinamentos:
São Cipriano (séc. III): “Não há salvação fora da Igreja”.
Credo de Santo Atanásio (séc. IV), oficial da Igreja Católica: “Todo aquele queira se salvar, antes de tudo é preciso que mantenha a fé católica; e aquele que não a guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre (…) está é a fé católica e aquele que não crer fiel e firmemente, não poderá se salvar”.
Papa Inocêncio III (1198-1216): “De coração cremos e com a boca confessamos uma só Igreja, que não de hereges, só a Santa, Romana, Católica e Apostólica, fora da qual cremos que ninguém se salva“.
IV Concílio de Latrão( 1215), infalível, Cânon I: “…Há apenas uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém é salvo…”.
Cânon III: “Nós excomungamos e anatematizamos toda heresia erguida contra a santa, ortodoxa e Católica fé sobre a qual nós, acima, explanamos…”.
Papa Bonifácio VIII (1294-1303): “Por apego da fé, estamos obrigados a crer e manter que há uma só e Santa Igreja Católica e a mesma apostólica e nós firmemente cremos e simplesmente a confessamos e fora dela não há salvação nem perdão dos pecados (…) Assim o declaramos, o decidimos, definimos e pronunciamos como de toda necessidade de salvação para toda criatura humana“.
Concílio de Florença (1438-1445): “Firmemente crê, professa e predica que ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica, não somente os pagãos, mas também, judeus, os hereges e os cismáticos, não poderão participar da vida eterna e irão para o fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos, a não ser que antes de sua morte se unirem a Ela(…)”.
O Concílio infalível de Trento (1545-1563) além de condenar e excomungar os protestantes, reiterou tudo o que os Concílios anteriores declararam, e ainda proferiu: “… A nossa fé católica, sem a qual é impossível agradar a Deus…”
Papa Pio IV (1559-1565), um dos papas do Concílio de Trento: “… Esta verdadeira fé católica, fora da qual ninguém pode se salvar…” (Profissão de fé da Bula “Iniunctum nobis” de 1564)
Papa Benedito IV (1740-1758): “Esta fé da Igreja Católica, fora da qual ninguém pode se salvar…”.
Papa Gregório XVI (1831-1846), Mirari Vos: “Outra causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda a parte, graças aos enganos dos ímpios e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do recto e honesto. Podeis com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só baptismo (Ef. 4,5): entendam, portanto os que pensam poder-se ir de todas as partes ao Porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo (Luc. 11,23) e os que não colhem com Cristo dispersam miseravelmente, pelo queperecerão infalivelmente os que não tiverem a fé católica e não a guardarem íntegra e sem mancha (Simb. SanctiAthanasii).
(…) Desta fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errónea, digo melhor disparate, que afirma e que defende a liberdade de consciência. Esse erro corrupto que abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estende por toda parte, chegando a imprudência de alguém asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma do que a liberdade do erro?, dizia Santo Agostinho (Ep. 166)”.
Erros condenados, pelo Papa Pio IX (1846-1878), no Syllabus:
15a “É livre a qualquer um abraçar o professar aquela religião que ele, guiado pela luz da razão, julgar verdadeira”.
16a “No culto de qualquer religião podem os homens achar o caminho da salvação e alcançar a mesma eterna salvação”.
17a “Pelo menos deve-se esperar bem da salvação eterna daqueles todos que não vivem na verdadeira Igreja de Cristo”.
18a “O protestantismo não é senão outra forma da verdadeira religião cristã na qual se pode agradar a Deus do mesmo modo que na Igreja Católica”.
Outro texto de Pio IX: “(…) não temem fomentar a opinião desastrosa para a Igreja Católica e a salvação das almas, denominada por Nosso Predecessor, de feliz memória, de ‘loucura’ (MirariVos) de que a ‘liberdade de consciência e de cultos é direito próprio e inalienável do indivíduo que há de proclamar-se nas leis e estabelecer-se em todas as sociedades constituídas; (…) Portanto, todas e cada uma das opiniões e perversas doutrinas explicitamente especificadas neste documento, por Nossa autoridade apostólica, reprovamos, proscrevemos e condenamos; queremos e mandamos que os filhos da Igreja as tenham, todas, por reprovadas, proscritas e totalmente condenadas”. (Quanta Cura)
Papa Leão XIII (1878-1903), encíclica Libertas Praestantissimum: “(…) oferecer ao homem liberdade (de culto)de que falamos, é dar-lhe o poder de desvirtuar ou abandonar impunemente o mais santo dos deveres, afastando-se do bem imutável, a fim de se voltar para o mal. Isto, já o dissemos, não é liberdade, é uma escravidão da alma na objecção do pecado.
Papa Pio XI (1922-1939), Mortalium Animus: “ Os esforços [do falso ecumenismo] não tem nenhum direito à aprovação dos católicos porque eles se apoiam sobre esta opinião errónea que todas as religiões são mais louváveis naquilo que elas revelam, e traduzem todas igualmente, se bem que de uma maneira diferente, o sentimento natural e inato que nos leva para Deus e nos inclina ao respeito diante de seu poder(…) Os infelizes infestados por esses erros sustentam que a verdade dogmática não é absoluta, mas relativa, e deve pois, se adaptar às várias exigências dos tempos e lugares às diversas necessidades das almas”.
(…) “Os artesãos dessas empresas não cessam de citar ao infinito a Palavra de Cristo: ‘Que todos sejam um. Haverá um só rebanho e um só pastor’( Jo XVII,21; X,16), e eles repetem esses texto como um desejo e um voto de Cristo que ainda não teria sido realizado. Eles pensam que a unidade da fé e de governo,característica da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu no passado e que não existe hoje… Eles afirmam que todas ( as igrejas) gozam dos mesmos direitos; que a Igreja só foi Una e Única, no máximo da época apostólica até os primeiros Concílios Ecuménicos(…). Tal é a situação. É claro, portanto, que a Sé Apostólica não pode por nenhum preço tomar parte em seus congressos, e que não é permitido, por nenhum preço, aos católicos aderir a semelhantes empreendimentos ou contribuir para eles; se eles o fizeremdariam autoridade a uma falsa religião cristã completamente estranha à única Igreja de Cristo”
Vejamos o que tem a dizer o maior papa do século, São Pio X (1903-1914), ele tem a autoridade dos papas e a virtude dos santos. Talvez seja a melhor pessoa, neste século, para falar sobre isso. Ele fez o chamado Catecismo Maior, em 1905. O primeiro Catecismo foi ordenado pelo Concílio de Trento, e foi publicado pelo Papa S. Pio V, em 1566, e é um resumo de toda doutrina principal que a Igreja sempre ensinou, colocada de forma fácil, para que todos possam compreender e obedecer.
“Catecismo da Doutrina Cristã”, voz infalível do ensinamento dos Papas e dos Concílios:
149- Que é a Igreja Católica?
A Igreja Católica é a sociedade ou reunião de todas as pessoas baptizadas que, vivendo na terra, professam a mesma fé e a mesma lei de Cristo, participam dos mesmos sacramentos, e obedecem aos legítimos Pastores, principalmente ao Romano Pontífice.
153- Então não pertencem à Igreja de Jesus Cristo as sociedades de pessoas baptizadas que não reconhecem o Romano Pontífice por seu chefe?
Todos os que não reconhecem o RomanoPontífice por seu chefe, não pertencem à Igreja de Jesus Cristo.
156- Não poderia haver mais de uma Igreja?
Não pode haver mais de uma Igreja, porque, assim com há um só Deus, uma só fé e um só Baptismo, assim também não há nem pode haver senão uma só Igreja verdadeira.
168- Pode alguém salvar-se fora da Igreja Católica, Apostólica, Romana?
Não. Fora da Igreja Católica, Apostólica, Romana, ninguém pode salvar-se, como ninguém pôde salvar-se do dilúvio fora da arca de Noé, que era figura desta Igreja.
Cremos ter provado que, pela Igreja Católica: só há uma Igreja verdadeira, fora da qual não há salvação;
Além disso, havendo um só Deus, consequentemente, só pode haver uma Igreja verdadeira.
Essas proposições valem para sempre.


fonte: Saúde da Alma

Maria Madalena...

Ela teve a coragem de se aproximar de Cristo e assim experimentou todo o amor e a misericórdia de Deus
Eu vi o Senhor!” Essa foi a grande proclamação de Maria Madalena. E é maravilhoso ver quem ela é, sabendo quem ela era. O próprio nome com o qual era chamada “Maria de Magdála” ou “Madalena” significa “fortaleza”. Houve um momento em que ela já estava enojada da vida que vivia. Ela, que ganhava muito dinheiro, tinha tudo que desejava, seus desejos eram satisfeitos, mas em seu coração havia um vazio.
Ela, que controlava os oficiais e era muito conhecida, praticamente tinha tudo em suas mãos. Mas o coração dela não tinha paz, pois lhe faltava algo muito importante. Quando ouviu falar de Jesus o coração dela começou a estremecer. “O que esse Homem está dizendo? Será que é disso que eu preciso?” Deve ter pensado. E Madalena começou, de longe, às escondidas, a buscar saber mais sobre o senhor. E pouco a pouco foi se aproximando de Jesus. E se perguntou: “Será que não é de um Deus assim de que estou precisando?”
Irmãos, estamos não simplesmente recordando algo do passado, mas o Evangelho de hoje se torna real em nosso meio. E suscita em nós essa mesma busca e desejo: “Eu quero vida nova!” É pela Palavra do Senhor que você vai deixar essa vida velha e vir para a vida nova. Avance cada vez mais alto!
Até que um dia ela não agüentou mais e se aproximou de Cristo para ouvi-Lo de perto e, teve a coragem de se aproximar d’Ele e assim experimentou todo o amor e a misericórdia de Deus. Jesus não a reprovou, por isso ela sentiu misericórdia divina e viu a possibilidade de ser diferente. Deixou tudo para trás porque viu que Ele era o Messias, anunciado pelos profetas desde Moisés.
Você também tem essa chance. O seu coração sempre buscou isso, mesmo na vida errada que andava vivendo, desde as coisas do sexo, da mentira, falsidade, orgulho, até as da vaidade, etc… Você tem agora a oportunidade de deixar tudo isso e buscar a vida nova. Hoje o Senhor está lhe dando a graça de romper com a medriocridade.
Reze: “Jesus, eu Te reconheço com meu único Senhor, hoje, Te aceito como meu Senhor e Salvador. Só Jesus Cristo é o meu Senhor e a ninguém mais servirei e seguirei. Só Tu és meu amado Senhor. E Te entrego toda a minha vida, entrego tudo o que eu tenho, a minha vida inteira está em Tua mão”. Eu também quero dizer “Eu vi o Senhor”, vê-Lo face a face; um dia, eu direi: “Eu vi o Senhor!”
Depois que Maria Madalena teve seu encontro com Jesus ela mudou de vida totalmente. Ela inaugurou uma coisa que naquela época não existia. Tantas histórias absurdas foram faladas sobre ela, e sabe por quê? Ela está ocupando lá no céu um lugar de privilégio, por isso o inimigo tem pavor dela. E também ela abriu um caminho para vocês mulheres, ela rompeu uma barreira, porque naquele tempo discípulos eram só homens, os mestres só tinham discípulos homens e Maria Madalena rompeu com tudo isso. Ela abriu um caminho, mesmo no tempo de Jesus a mulher não tinha nenhum valor e nem discípula poderia ser. Ela O serviu junto com as outras mulheres.
Erramos em tantas coisas, mas Jesus rompe com a vida velha, basta que você também queira romper com ela. “Eis que tudo se faz novo, passou o que era velho” nos diz o Senhor.
Ninguém a chamava com tanta ternura, só Jesus, e na hora em que Ele a chamou ela O reconheceu e respondeu “Rabôni”, que quer dizer “Mestre” em hebraico (cf. João 20.16). E Ele a enviou para ser a grande anunciadora da ressurreição d’Ele. Em primeiro lugar, Jesus ressuscitou você e lhe deu uma vida nova. Agora é o dia da salvação, para você é o dia favoravél! Decida-se! E a decisão é só sua, ninguém pode decidir por você. Escreva no seu caderno, na sua Bíblia: “Hoje eu me decido por Jesus”.
Louvado seja o Senhor!
Padre Jonas Abib
 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Os sinais da Epifania explicados por Bento XVI na missa celebrada na basílica de São Pedro "O caminho dos magos"

Para descobrir e decifrar na criação a assinatura de Deus

Na criação existe a "assinatura" de Deus: trata-se de uma assinatura que o homem "pode e deve procurar descobrir e decifrar". Celebrando na manhã de 6 de Janeiro a missa da Epifania do Senhor na basílica de São Pedro, o Sumo Pontífice repropôs os sinais e o sentido do caminho que há dois mil anos levou os Magos a seguir a estrela para encontrar o Messias.

Prezados irmãos e irmãs!

Na solenidade da Epifania, a Igreja continua a contemplar e a celebrar o mistério do nascimento de Jesus Salvador. Em particular, a celebração hodierna sublinha o destino e o significado universais deste nascimento. Fazendo-se homem no seio de Maria, o Filho de Deus veio não só para o povo de Israel, representado pelos pastores de Belém, mas também para a humanidade inteira, representada pelos Magos. E é precisamente a respeito dos Magos e do seu caminho em busca do Messias (cf. Mt 2, 1-12) que hoje a Igreja nos convida a meditar e a rezar. No Evangelho ouvimos que eles, tendo chegado a Jerusalém provenientes do Oriente, perguntam: "Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo" (v. 2). Que tipo de pessoas eram, e que espécie de estrela era aquela? Eles eram, provavelmente, sábios que perscrutavam o céu, mas não para procurar "ler" o futuro nos astros, eventualmente para obter disto um lucro; eram sobretudo homens "à procura" de algo mais, em busca da verdadeira luz, que seja capaz de indicar o caminho a percorrer na vida. Eram pessoas convictas de que na criação existe aquela que poderíamos definir como a "assinatura" de Deus, uma assinatura que o homem pode e deve procurar descobrir e decifrar. Talvez o modo para conhecer melhor estes Magos e compreender o seu desejo de se deixar guiar pelos sinais de Deus consista em deter-nos para considerar aquilo que eles encontram ao longo do seu caminho, na grande cidade de Jerusalém.
Em primeiro lugar, encontraram o rei Herodes. Certamente, ele estava interessado no menino de que os Magos falavam; no entanto, não com a finalidade de o adorar, como quer fazer entender, mentindo, mas sim para o suprimir. Herodes é um homem de poder, que no próximo só consegue ver um rival para combater. No fundo, se meditarmos bem, até Deus lhe parece um rival, aliás, um rival particularmente perigoso, que gostaria de privar os homens do seu espaço vital, da sua autonomia, do seu poder; um rival que indica o caminho a percorrer na vida, e assim impede que se realize tudo o que se deseja. Herodes ouve dos seus peritos nas Sagradas Escrituras, as palavras do profeta Miqueias (cf. 5, 1), mas o seu único pensamento é o trono. Então, o próprio Deus deve ser ofuscado e as pessoas devem reduzir-se a ser simples peças para mover no grande tabuleiro do poder. Herodes é uma figura que não nos é simpática e que, instintivamente, julgamos de modo negativo pela sua brutalidade. Mas deveríamos perguntar-nos: existe, porventura, algo de Herodes também em nós? Acaso também nós, às vezes, vemos Deus como uma espécie de rival? Porventura também nós somos cegos diante dos seus sinais, surdos às suas palavras, porque pensamos que Ele impõe limites à nossa vida e não nos permite dispor da existência a nosso bel-prazer? Estimados irmãos e irmãs, quando vemos Deus deste modo, acabamos por nos sentir insatisfeitos e aborrecidos, porque não nos deixamos guiar por Aquele que está no fundamento de tudo. Temos que eliminar da nossa mente e do nosso coração a ideia da rivalidade, a ideia de que conceder espaço a Deus constitui um limite para nós mesmos; devemos abrir-nos à certeza de que Deus é o amor todo-poderoso que nada tira, não ameaça, aliás, é o Único capaz de nos oferecer a possibilidade de viver em plenitude, de sentir a verdadeira alegria.
Sucessivamente, os Magos encontram os estudiosos, os teólogos, os especialistas que sabem tudo sobre as Sagradas Escrituras, que conhecem as suas possíveis interpretações, que são capazes de citar de cor cada um dos seus trechos e que, por conseguinte, são uma ajuda preciosa para quem quer percorrer o caminho de Deus. Contudo, afirma santo Agostinho, eles gostam de ser guias para os outros, indicam a vereda mas não caminham, permanecem imóveis. Para eles, as Escrituras tornam-se uma espécie de atlas a ler com curiosidade, um conjunto de palavras e de conceitos a examinar e sobre o qual debater com sabedoria. Mas, novamente, podemos interrogar-nos: não existe inclusive em nós a tentação de considerar as Sagradas Escrituras, este tesouro extremamente rico e vital para a fé da Igreja, mais como um objecto para o estudo e o debate dos especialistas, do que o Livro que nos indica o caminho para alcançar a vida? Na minha opinião, como indiquei na Exortação Apostólica Verbum Domini, deveria surgir sempre de novo em nós a profunda disposição a considerar a palavra da Bíblia, lida na Tradição viva da Igreja (cf. n. 18), como a verdade que nos diz o que é o homem, e como pode ele realizar-se plenamente, a verdade que é a senda a percorrer no dia-a-dia, juntamente com os demais, se quisermos construir a nossa existência sobre a rocha, e não sobre a areia.
E agora consideremos a estrela. Que tipo de estrela era aquela que os Magos viram e seguiram? Ao longo dos séculos, esta pergunta foi objecto de debate entre os astrónomos. Kepler, por exemplo, considerava que se tratasse de uma "nova", ou de uma "supernova", ou seja, de uma daquelas estrelas que normalmente emanam uma luz ténue mas que, de repente, podem ter uma violenta explosão interna, que produz uma luz extraordinária. Sem dúvida, coisas interessantes, mas que não nos orientam rumo àquilo que é essencial para compreendemos esta estrela. Temos que remontar ao facto de que aqueles homens buscavam os vestígios de Deus; procuravam ler a sua "assinatura" na criação; sabiam que "narram os céus a glória de Deus" (Sl 19 [18], 2); isto é, estavam persuadidos de que Deus pode ser vislumbrado na criação. No entanto, como homens sábios, estavam conscientes também de que não é com um telescópio qualquer, mas com os profundos olhos da razão em busca do sentido último da realidade, e com o desejo de Deus impelido pela fé, que é possível encontrá-lo, aliás, que se torna possível que Deus se aproxime de nós. O universo não é o resultado do caso, como alguns querem fazer-nos crer. Contemplando-o, somos convidados a ler nele algo de profundo: a sabedoria do Criador, a fantasia inesgotável de Deus, o seu amor infinito por nós. Não deveríamos deixar limitar a nossa mente por teorias que chegam apenas a um certo ponto e que - se olharmos bem - não estão de modo algum em concorrência com a fé, mas não conseguem explicar o sentido derradeiro da realidade. Na beleza do mundo, no seu mistério, na sua grandeza e na sua racionalidade não podemos deixar de ler a racionalidade eterna, e não podemos deixar de nos fazer guiar por ela até ao único Deus, Criador do céu e da terra. Se tivermos este olhar, veremos que Aquele que criou o mundo e Aquele que nasceu numa gruta em Belém e continua a habitar no meio de nós na Eucaristia são o único Deus vivo, que nos interpela, nos ama e quer conduzir-nos para a vida eterna.
Herodes, os especialistas das Escrituras, a estrela. Mas sigamos o caminho dos Magos, que chegam a Jerusalém. Em cima da grande cidade, a estrela desaparece, já não se vê. O que signfica? Também neste caso, temos que ler o sinal em profundidade. Para aqueles homens, era lógico procurar o novo rei no palácio real, onde se encontravam os sábios conselheiros da corte. Mas, provavelmente para sua surpresa, tiveram que constatar que aquele recém-nascido não se encontrava nos postos do poder e da cultura, embora naqueles lugares lhes tenham sido oferecidas informações preciosas acerca dele. Ao contrário, deram-se conta de que por vezes o poder, inclusive o do conhecimento, impede o caminho rumo ao encontro com aquele Menino. Então, a estrela orientou-os para Belém, uma pequena cidade; guiou-os entre os pobres, entre os humildes, para encontrar o Rei do mundo. Os critérios de Deus são diferentes dos critérios dos homens; Deus não se manifesta no poder deste mundo, mas sim na humildade do seu amor, daquele amor que pede à nossa liberdade para ser recebido para nos transformar e nos tornar capazes de chegar Àquele que é o Amor. Mas também para nós, as coisas não são tão diferentes de como eram para os Magos. Se nos fosse pedido o nosso parecer sobre a forma como Deus deveria ter salvo o mundo, talvez respondêssemos que devia manifestar todo o seu poder para conceder ao mundo um sistema económico mais justo, no qual cada um pudesse dispor de tudo o que quer. Na realidade, esta seria uma espécie de violência sobre o homem, porque o privaria de elementos fundamentais que o caracterizam. Com efeito, não seriam interpelados a nossa liberdade, nem o nosso amor. O poder de Deus manifesta-se de modo totalmente diferente: em Belém, onde encontramos a aparente impotência do seu amor. E é ali que nós devemos ir, é lá que havemos de encontrar a estrela de Deus.
Assim, parece-nos bem claro também um último elemento importante da vicissitude dos Magos: a linguagem da criação permite-nos percorrer um bom trecho de caminho rumo a Deus, mas não nos concede a luz definitiva. No final, para os Magos era indispensável ouvir a voz das Sagradas Escrituras: unicamente elas podiam indicar-lhes o caminho. A Palavra de Deus é a verdadeira estrela que, na incerteza dos discursos humanos, nos oferece o imenso esplendor da verdade divina. Caros irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pela estrela, que é a Palavra de Deus; sigamo-la na nossa vida, caminhando com a Igreja, onde a Palavra armou a sua tenda. A nossa senda será sempre iluminada por uma luz que sinal algum nos pode oferecer. E também nós poderemos tornar-nos estrelas para os outros, reflexo daquela luz que Cristo fez resplandecer sobre nós. Amém. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

6 de janeiro: Epifania do Senhor (no Brasil celebra-se no primeiro Domingo após o 6 de janeiro)






A Epifania é uma das festas liturgias mais antigas, mais antiga mesmo que o Natal. Começou a ser celebrada no Oriente, no século III e foi adotada no Ocidente durante o século IV . Palavra grega que às vezes é usada como nome de pessoa, significa 'manifestação', pois o Senhor se revelou aos pagãos, na pessoa dos magos.

Três mistérios acostumou-se a celebrar nesta única festa, por ser tradição antiquíssima: a adoração dos magos, o batismo de Cristo por São João Batista, e o primeiro milagre das bodas de Caná.Para nós Ocidentais a Epifania é popularmente o dia dos reis magos.

Precisamente nesta adoração os santos padres viram a aceitação da divindade de Jesus Cristo pelos povos pagãos. Os magos souberam utilizar seus conhecimentos - em seu caso a astronomia de seu tempo – para descobrir o Salvador, prometido por meio de Israel para toda a humanidade. Os orientais chamavam 'magos' os seus doutores.Na língua persa, significa 'sacerdote'.

Melchior, Balthasar e Gaspar eram seus nomes. Ofereceram substâncias preciosas, onde a tradição quis ver o reconhecimento implícito da realeza messiânica de Cristo (ouro), sua divindade (incenso) e sua humanidade (mirra). 

A Epifania, como expressa a liturgia, antecipa nossa participação na glória da imortalidade de Cristo, manifestada em uma natureza mortal como a nossa.

É, pois, uma festa de esperança que prolonga a luz do Natal

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

BENTO XVI: CARIDADE É FORÇA QUE TRANSFORMA O MUNDO

Cidade do Vaticano, 26 dez (RV) - "A caridade é a verdadeira força que transforma o mundo": assim se expressou o Papa ao término do almoço com cerca de 250 pobres assistidos pelas diversas comunidades romanas das Missionárias da Caridade, que se realizou neste domingo numa das dependências da Sala Paulo VI, no Vaticano, por ocasião do centenário de nascimento da Beata Madre Teresa de Calcutá.

Encontravam-se presentes também muitos religiosos e religiosas, aos quais o Santo Padre agradeceu por seus humilde serviço aos mais necessitados. Ao término do almoço teve lugar a saudação também da Superiora Geral das Missionárias da Caridade, Irmã Prema.

Com sua participação, o Papa evidenciou a alegria de partilhar o Natal com quem é pobre, sozinho e marginalizado, como também com quem doa a sua vida aos outros de modo humilde e discreto.

A mesma alegria anunciada pelos anjos aos pastores de Belém diante da gruta que acolheu o Salvador foi vivida na dependência da Sala Paulo VI, onde Bento XVI almoçou com os referidos 250 pobres acompanhados de numerosos religiosos e religiosas da grande Família fundada por Madre Teresa de Calcutá.

"A criança que vemos na gruta é Deus mesmo que se fez homem para mostrar-nos como nos quer bem, como nos ama: Deus tornou-se um de nós para fazer-se próximo a cada um, para vencer o mal, para libertar-nos do pecado, para dar-nos esperança, para dizer-nos que jamais estamos sozinhos" – frisou o Pontífice.

E detendo-se justamente sobre o testemunho de vida de Madre Teresa, Bento XVI definiu-a como um reflexo de luz do amor de Deus:

"A Beata Teresa de Calcutá viveu a caridade para com todos sem distinção, mas com uma preferência pelos mais pobres e abandonados: um sinal luminoso da paternidade e da bondade de Deus. Soube reconhecer em cada um o rosto de Cristo, por ela amado com todo o seu ser."

"A caridade é sempre a verdadeira força que transforma o mundo." Por isso, a quem se pergunta por que Madre Teresa se tornou tão famosa, Bento XVI responde:

"Porque viveu de modo humilde e anônimo, por amor e no amor a Deus. Ela mesma afirmava que o seu maior prêmio era amar Jesus e servi-lo nos pobres."

Graças a Madre Teresa – disse ainda o Papa – nos damos conta de como a nossa vida pode mudar, de como a nossa alma pode tornar-se espelho da luz de Cristo e iluminar os outros.

"Ela deu-nos a consolação e a certeza de que Deus jamais abandona alguém, e a sua missão – afirmou o Pontífice – continua através daqueles que em todos os cantos do mundo vivem o seu carisma escolhendo ser missionários da Caridade."

Em seguida, Bento XVI agradeceu a todos aqueles que doam a própria vida aos outros, muitas vezes de modo anônimo aos olhos dos homens, mas extraordinário e precioso para o coração de Deus:

"Para o homem muitas vezes em busca de felicidades ilusórias, o testemunho de vida de vocês diz onde se encontra a verdadeira alegria: no partilhar, no doar, no amar com a mesma gratuidade de Deus que rompe a lógica do egoísmo humano."

Em seguida, o Papa saudou os hóspedes, os amigos e a todos os presentes que partilharam este momento alegre de comunhão e fraternidade. "Caros amigos! Saibam que o Papa os quer bem" – ressaltou. (RL)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

São Pedro Fourier Pároco, fundador e reformador

Desconhecido no Brasil, foi entretanto um grande santo, em algo semelhante ao Cura d’Ars como pároco, a São João Bosco como fundador, a São Pedro de Alcântara como reformador e a Santo Afonso de Ligório como missionário

Muitas vezes os santos devem a famílias bem formadas e pais piedosos sua propensão para a santidade. São Pedro Fourier não fugiu a essa regra. Seus pais, Domingos Fourier e Ana Nacquart, eram mediocremente dotados dos bens da Terra, mas ricos dos celestes. E legaram a seus cinco filhos, como seu maior tesouro, a integridade da fé.
São Pedro Fourier nasceu a 30 de novembro de 1565 em Mirecourt, nos Vosges, região da Lorena (França), então um ducado independente. Seus pais o consagraram especialmente a Deus e o destinaram — caso correspondesse aos seus anseios — para o serviço dos altares. Deus aceitou benigno esse oferecimento, cumulando o menino de graças especiais.
Pedro teve assim, desde cedo, muita inclinação para a virtude, especialmente para a pureza. Desde muito pequeno, não tolerava que se deixasse descoberta nenhuma parte de seu corpo, mesmo quando se tratava de trocá-lo. Chorava inconsoladamente, sossegando apenas quando inteiramente vestido. Então sorria, e tornava-se meigo e aprazível.
À medida que crescia, tornava-se mais modesto em seus olhares, moderado em seu riso, inocente nos modos de agir, fazendo transparecer, em todos os divertimentos da idade, uma maturidade que provocava a admiração de todos que o observavam.
Mas sobretudo o que nele atraía e encantava era uma profunda bondade de coração. Todos se sentiam bem com ele, e sabia-se que, ele presente, não haveria críticas vãs, rivalidades, brigas, disputas nem outras coisas muito freqüentes entre crianças quando entra o amor próprio.
Aos 15 anos de idade foi enviado à Universidade de Pont-à-Mousson, onde um tio paterno era reitor, a qual gozava na época de grande fama devido a seus excelentes mestres.
Pedro seguiu o curso na universidade como se estivesse num convento. Passou a comer uma só vez ao dia, e de preferência a comida mais grosseira. Suprimiu o uso do vinho, tão comum naquelas terras. Só bebia água, e ainda assim moderadamente. Para preservar a pureza e obter controle sobre si mesmo, passou a flagelar seu corpo e a usar disciplinas, que só tirava para dormir.
A proteção de Nossa Senhora foi para ele fundamental. Sobretudo recorria incessantemente à Rainha do Céu para que o tomasse sob sua proteção e não permitisse que jamais falta voluntária viesse tisnar-lhe a pureza virginal. Por devoção à Virgem, ingressou na Congregação Mariana da universidade. Ao chegar à maturidade, era de estatura alta e majestosa, semblante benévolo e presença muito agradável.
Pedro aprendeu tão bem o latim, que lia correntemente o que os autores haviam escrito de mais difícil nessa língua. Aprendeu também o grego, de modo a ler obras de São João Crisóstomo e de outros Padres gregos da Igreja no original.
Ótimo aluno, com muita facilidade para compreender e bem explicar o que aprendera, alguns gentis-homens rogaram-lhe fosse tutor de seus filhos, o que aceitou. Isso lhe seria de muito proveito no futuro para a congregação que fundaria, dedicada ao ensino.
Maus tratos, tentativa de assassinato
Fonte em homenagem ao santo em Mattaincourt
Mas Pedro queria consagrar-se inteiramente a Deus. Não faltavam então na Lorena conventos e casas religiosas cheias de fervor, que pudessem atraí-lo. Entretanto, escolheu os Cônegos Regulares de Santo Agostinho, de Chaumousey, muito decadentes na época, nela ingressando aos 20 anos de idade.
Apesar da sua profunda humildade, quando noviço foi mal visto pelos outros religiosos, porque sua observância exímia do regulamento era para eles uma constante censura. Enfim, ele perseverou e recebeu a ordenação sacerdotal em 1589. Seu superior enviou-o novamente à universidade de Pont-à-Mousson para completar seus estudos de teologia sob a direção de seu parente, João Fourier, que também teve a glória de haver formado São Francisco de Sales.
Após ter-se aprofundado no estudo da teologia, Sagradas Escrituras e obras dos Padres da Igreja, voltou para seu convento, pelo desejo de seus superiores de que ali ele restabelecesse a antiga regularidade e fervor.
Sem criticar ou queixar-se, procurava conquistar seus confrades pelo exemplo. A tática não surtiu efeito, pois os maus odeiam os bons porque são bons. Três ou quatro membros dos mais irregulares da comunidade ligaram-se contra ele, submetendo-o a toda sorte de confusões, chacotas e maus tratos; inclusive atentaram contra sua vida, procurando envenená-lo. Mas Pedro comia tão pouco, que não lhe fez mal o veneno que lhe ministraram. Sua mortificação salvou-lhe a vida.
Vigário de aldeia, exemplo de vida para todos
São Pedro Fourier
Após dois anos de provações, talvez para livrá-lo dos maus tratos, em relação aos quais Pedro parecia muito fraco para combater, o superior nomeou-o vigário de Mattaincourt, situada num vale risonho regado pelo rio Madon. Essa cidadezinha, a par da indiferença religiosa, estava muito influenciada pelo calvinismo por causa de suas relações comerciais com Genebra, a ruidosa capital dessa heresia na época.
São Pedro Fourrier logo constatou que a ignorância religiosa, a sede de prazeres, a heresia e o ateísmo haviam criado profundas raízes na cidade. Antecedendo o Santo Cura d’Ars em quase 200 anos, começou a reconquistar seus paroquianos, um a um. Ia às casas, onde procurava reunir três ou quatro famílias, ensinando-lhes os preceitos do Evangelho. Inculcava-lhes de tal maneira os princípios de nossa salvação, que emocionava os assistentes.
Ele ia ao encontro dos libertinos e alcoólatras e lhes atirava em face sua impiedade e malícia. Tudo isso fruto de uma caridade, uma ternura e um tal interesse pela salvação de suas almas, que os tocava a fundo.
Mas havia também a conquistar os “espíritos fortes” da cidade. Depois de muito rezar e fazer penitência por eles, Pedro Fourier tomava uma atitude extremamente caridosa: ia à casa desses ímpios e, com voz tonitruante, autoridade e firmeza, os exprobrava, por sua impiedade. Depois, no tribunal da penitência, ele obtinha duradouros frutos.
Todos sabiam que o pároco era tudo para todos. Estava sempre pronto, a qualquer hora do dia ou da noite, a atender qualquer caso. Visitava os doentes e também as escolas, informando-se da conduta dos alunos, aperfeiçoando-lhes os métodos e ensinando ele mesmo o catecismo às crianças.
Os artesãos e comerciantes caídos em desgraça eram por ele socorridos. Criou para socorrê-los um fundo, chamado de Bolsa de São Evre. Os nobres empobrecidos e envergonhados encontravam nele um apoio seguro.
Para conjurar a cólera de Deus, manifestada nos flagelos naturais como enchentes ou secas, recorreu à Santíssima Virgem como advogada e instituiu três sodalícios –– um de São Sebastião para os homens, e dois para as mulheres: do Santo Rosário e da Imaculada Conceição, ou Filhas de Maria. Fez cunhar uma medalha com os dizeres: Maria foi concebida sem pecado”, que distribuiu por toda a Lorena. Assim, mais de 200 anos antes da proclamação desse dogma, ele divulgou essa devoção à Mãe de Deus.
Houve um projeto de São Pedro Fourier que seria muito apropriado para nossos dias, especialmente para o Brasil, onde todos se afogam numa infinidade de leis e processos. O santo via que, quanto mais se multiplicavam os oficiais de justiça, tanto mais lentos eram os processos. Ele adotava a máxima de Santo Agostinho: “Não processos, ou terminá-los depressa”. E concebeu uma associação na qual se engajariam os personagens mais nobres e mais influentes da cidade. Acompanhados de alguns advogados escolhidos entre os mais hábeis, eles deviam trabalhar para terminar amigavelmente os processos e dificuldades surgidas. Se uma das partes envolvidas, julgando ter inteira razão, se recusasse a esse acordo amigável, haveria uma caixa comum da qual a outra parte, se necessitada, pegaria o dinheiro necessário para o prosseguimento do processo, sem que ninguém sofresse dano com isso. As guerras de religião, que se seguiram, impediram a realização desse plano.
São Pedro Fourier mudou a face de Mattaincourt, que se transformou num como que oásis, no qual floresciam as virtudes cristãs. O uso dos sacramentos passou a ser freqüente, os casados viviam em boa harmonia, muitos jejuavam ou usavam instrumentos de mortificação, e mesmo levavam seu cilício e seu terço ao trabalho.
Educar a juventude para salvar a sociedade
Interior da basílica de Mattaincourt
Isso fez com que os prelados da região lhe pedissem que fosse pregar missões em suas dioceses.
Nessa faina, teve contacto profundo com os vícios e a corrupção de costumes da sociedade, o que lhe sangrava o coração. O que podia fazer para solucionar essa situação? Depois de muito rezar e meditar, chegou à conclusão de que era necessário educar a mocidade, logo que capaz de instrução, e submetê-la à direção de pessoas sábias e piedosas. Formando os jovens desde cedo, os preservaria dos males do século. Tentou então fundar uma obra para a educação dos meninos e outra para a das meninas. Entretanto só teve êxito com a obra para as meninas. Estava reservada a São João Batista de la Salle, algum tempo depois, a educação dos meninos.
Um grupo de donzelas, por ele dirigidas, declarou que estavam dispostas a se consagrar a Deus na obra que ele meditava. Surgiu assim a Congregação de Nossa Senhora das Cônegas Regulares de Santo Agostinho, que logo se espalhou pela Lorena e pela França. Antes de sua morte, São Pedro Fourier pôde ver trinta e dois mosteiros solidamente estabelecidos. Foi ele, assim, o precursor das várias congregações dedicadas ao ensino, que surgiram depois na Igreja.
A caridade de São Pedro Fourier era entretanto muito mais ampla, e abraçava outras obras de apostolado. Por isso, em 1621 ele se pôs a trabalhar na reforma da decadente Ordem dos Cônegos Regulares, numa antiga abadia de São Remígio, de Luneville, com seis noviços. Deus abençoou de tal modo essa empresa que, quatro anos depois, já oito casas das mais consideráveis abraçavam sua reforma. Em 1629 formaram a Congregação de Nosso Salvador.
Em 1625 São Pedro foi enviado para tentar a conversão dos habitantes do Principado de Salm, próximo de Nancy, que tinham apostatado e abraçado o calvinismo. Em seis meses todos os protestantes, a quem ele chamava de “pobres estrangeiros”, retornaram à fé.
Uma das suas mais profundas dores nesse tempo foi a de saber que, em sua cara cidade de Mattaincourt, 40 pessoas haviam ficado possessas do demônio e constituíam fontes de desordens na igreja e na paróquia. Acorreu logo em socorro de suas antigas ovelhas, e por meio de exorcismos, jejuns, preces e penitências conseguiu livrar seus antigos paroquianos da possessão diabólica.
Por sua fidelidade à Casa de Lorena, São Pedro Fourier teve que exilar-se no Franco Condado, então espanhol, onde faleceu no dia 9 de dezembro de 1640.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

João Paulo II e Maria

Dia 17 de outubro de 1978, poucas horas depois de ter sido eleito Papa, João Paulo II dirigiu-se ao mundo, apresentando as grandes linhas de seu pontificado. Quando se referiu à Mãe de Jesus, comentou: “Nesta hora, marcada para nós pela surpresa e responsabilidade, não podemos deixar de voltar, com filial devoção, o nosso olhar para a Virgem Maria [...], repetindo as palavras comovedoras totus tuus (todo teu), que há vinte anos gravamos em nosso coração e em nossas armas, no dia da ordenação episcopal”.
Vinte e cinco anos depois, constatamos que Karol Wojtyla continua olhando para Maria e aproveitando momentos solenes ou encontros pessoais, visitas a santuários internacionais ou a pequenas grutas para renovar sua “consagração a Cristo pelas mãos de Maria” (RMa 48), como meio eficaz para viver fielmente seus compromissos.
Se tivéssemos que destacar um pensamento que sintetize a mariologia do Papa, teríamos um imenso desafio pela frente pois, além de ele ter escrito a encíclicaRedemptoris Mater e a carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, reservou a Nossa Senhora capítulos de alguns documentos (como não lembrar “Na Escola de Maria, Mulher ‘Eucarística’”, da Ecclesia de Eucharistia?), fez dezenas de alocuções às quartas-feiras, sobre o lugar da Bem-aventurada Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja, centenas de homilias marianas e lhe dedicou um número incalculável de orações e consagrações. Aceitando o possível desafio, escolhemos uma frase que não só resume sua visão mariana, como também sintetiza a razão de seu totus tuus: “Importa reconhecer que, antes do que quaisquer outros, o próprio Deus, o Pai eterno, confiou-se à Virgem de Nazaré,dando-lhe o próprio Filho no mistério da Encarnação” (RMa 39 – o itálico, também das frases que seguem, é do original).
Na linha do Concílio Vaticano II, para João Paulo II é impensável uma mariologia desvinculada do Filho que ela acolheu na Anunciação: “Só no mistério de Cristo“se esclarece” plenamente o seu mistério... Maria está unida a Cristo de um modo absolutamente especial e excepcional... Maria recebe a vida daquele ao qual ela própria, na ordem da geração terrena, deu a vida como mãe” (RMa 4, 8 e 10).
Não é de admirar que o Papa tenha desejado dedicar ao Rosário, sua “oração predileta” (RVM), o ano que antecederia a celebração de seus vinte e cinco anos à frente da Igreja. Quis, assim, incentivar “a contemplação do rosto de Cristo na companhia e na escola de sua Mãe Santíssima. Com efeito, recitar o Rosário nada mais é senão contemplar com Maria o rosto de Cristo” (id. 3). Ele colocou como intenções do Ano do Rosário duas das maiores preocupações de seu pontificado: a paz e a família.
A missão de nos ensinar a fixar os olhos no rosto de Cristo e de nos ajudar a “reconhecer seu mistério no caminho ordinário e doloroso de sua humanidade, até perceber o brilho divino definitivamente manifestado no Ressuscitado glorificado à direita do Pai” (RVM 9) parte de uma convicção de que “a contemplação de Cristo tem em Maria o seu modelo insuperável” pois “o rosto do Filho pertence-lhe sob um título especial” (id. 10).
A mariologia do atual Papa nada tem de nova. Ele foi fortemente influenciado por S. Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716): “Toda a nossa perfeição consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devoções é incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, sendo Maria, entre todas as criaturas, a mais configurada a Jesus Cristo, daí se conclui que, de todas as devoções, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, sua santa Mãe; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais será a Jesus Cristo” (Tratado, 120 – citado na RVM 15).
Alguém duvida de que João Paulo II continuará proclamando isso até o final de seu pontificado?...