segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Homilia da missa do Papa na solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

O céu é o amor de Deus
onde há lugar também para o homem



O amor de Deus é tão grande, a ponto de reservar um lugar também para o homem, recordou o Santo Padre durante a homilia da missa celebrada na paróquia de S. Tomás de Vilanova em Castel Gandolfo, na manhã de domingo 15 de Agosto, solenidade da Assunção de Maria ao céu. 
Eminência Excelência 
Autoridades
 
Caros irmãos e irmãs
 
Hoje, a Igreja celebra uma das mais importantes festas do ano litúrgico, dedicadas a Maria Santíssima:  a Assunção. No final da sua vida terrena, Maria foi levada de corpo e alma ao Céu, ou seja, à glória da vida terrena, à comunhão completa e perfeita com Deus.
 
No corrente ano celebra-se o sexagésimo aniversário da data em que o Venerável Papa Pio XII, no dia 1 de Novembro de 1950, definiu solenemente este dogma, e gostaria de ler embora seja um pouco complicado a forma da dogmatização. O Papa afirma:  "De tal modo, a augusta Mãe de Deus, arcanamente unida a Jesus Cristo desde toda a eternidade com um único decreto de predestinação, Imaculada na sua Conceição, Virgem pura na sua maternidade divina, Sócia generosa do Redentor divino que alcançou o triunfo total sobre o pecado e sobre as suas consequências, no final, como coroação suprema dos seus privilégios, obteve a graça de ser preservada da corrupção do sepulcro e, vencendo a morte, como já o seu Filho, de ser elevada de corpo e alma à glória do Céu, onde resplandece como Rainha à direita do seu Filho, Rei
 imortal dos séculos" (Constituição apostólicaMunificentissimus Deus, em aas 42 [1959], 768-769). 
Por conseguinte, este é o núcleo da nossa fé na Assunção:  nós acreditamos que Maria, como Cristo seu Filho, já venceu a morte e já triunfa na glória celeste, na totalidade do seu ser, "de corpo e alma".
 
Na segunda Leitura de hoje, São Paulo ajuda-nos a lançar um pouco de luz sobre este mistério, partindo do acontecimento central da história humana e da nossa fé:  ou seja, o acontecimento da ressurreição de Cristo, que é "primícias daqueles que já morreram". Mergulhados no seu Mistério pascal, nós tornamo-nos partícipes da sua vitória sobre o pecado e sobre a morte. Eis o segredo surpreendente e a realidade-chave de toda a vicissitude humana. São Paulo diz-nos que todos nós estamos "incorporados" em Adão, o primeiro e antigo homem, todos nós temos a mesma herança humana, à qual pertence:  o sofrimento, a morte e o pecado. Mas a esta realidade, que todos nós podemos ver e viver todos os dias, acrescenta algo de novo:  nós encontramo-nos não apenas nesta herança do único ser humano, encetado com Adão, mas somos "incorporados" também no novo homem, em Cristo ressuscitado, e assim a vida da Ressurreição já está presente
em nós. Portanto, esta primeira "incorporação" biológica e incorporação na morte, incorporação que gera a morte. A segunda, nova, que nos é conferida mediante o Baptismo, é a "incorporação" que dá a vida. Volto a citar a segunda Leitura hodierna; São Paulo diz:  "Porque, assim como por meio de um homem veio a morte, também a ressurreição dos mortos veio por através de um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, também em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua ordem:  Cristo, como primícias; depois, os que são de Cristo, por ocasião da sua vinda" (1 Cor 15, 21-23). 
Pois bem, aquilo que São Paulo afirma a respeito de todos os homens, a Igreja, no seu Magistério infalível, é dito por Maria, de um modo e num sentido específicos:  a Mãe de Deus é inserida em tal medida no Mistério de Cristo, a ponto de ser partícipe da Ressurreição do seu Filho com todo o seu ser, já no final da vida terrena; vive aquilo que nós esperamos no final dos tempos, quando for aniquilado "o último inimigo", a morte (cf.
 1 Cor 15, 26); já vive aquilo que proclamamos no Credo:  "Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir". 
Então, podemos perguntar-nos:  quais são as raízes desta vitória sobre a morte, prodigiosamente antecipada em Maria? As raízes estão na fé da Virgem de Nazaré, como testemunha o trecho do Evangelho que há pouco ouvimos (cf.
 Lc 1, 39-56):  uma fé que é obediência à Palavra de Deus e abandono total à iniciativa e à obra divina, segundo quanto lhe é anunciado pelo Arcanjo. Por conseguinte, a fé é a grandeza de Maria, como proclama alegremente Isabel:  Maria é "bendita entre as mulheres", "bendito é o fruto do seu ventre", porque é "a Mãe do Senhor", porque acredita e vive de maneira singular a "primeira" das bem-aventuranças, a bem-aventurança da fé. Isabel confessa-o na alegria, sua e do menino que salta de alegria no seu seio:  "Feliz aquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lc 1, 45). Queridos amigos, não nos limitemos a admirar Maria no seu destino de glória, como uma pessoa muito distante de nós:  não! Somos chamados a contemplar aquilo que o Senhor, no seu amor, desejou também para nós, para o nosso destino final:  viver através da fé na comunhão perfeita de amor com Ele e, deste modo, viver verdadeiramente. 
A este propósito, gostaria de meditar sobre um aspecto da afirmação dogmática, onde se fala de assunção à glória celestial. Hoje, todos nós estamos perfeitamente conscientes de que, com o termo "céu" não nos referimos a um lugar qualquer do universo, a uma estrela ou a algo de semelhante:  não. Referimo-nos a algo de muito grande e difícil de ser definido com os nossos limitados conceitos humanos. Com este termo, "céu", queremos afirmar que Deus, o Deus que se fez próximo de nós, não nos abandona nem sequer na morte e além da morte, mas tem um lugar para nós e nos concede a eternidade; queremos afirmar que em Deus existe um lugar para nós. Para compreender um pouco mais desta realidade, olhemos para a nossa própria vida:  todos nós experimentamos que, quando uma pessoa morre, continua a subsistir de alguma maneira na memória e no coração daqueles que a conheceram e amaram. Poderíamos dizer que neles continua a viver uma parte de tal pessoa, mas é como uma "sombra", porque também esta sobrevivência no coração dos próprios entes queridos está destinada a terminar. Deus, no entanto, nunca passa e todos nós existimos em virtude do seu amor. Existimos porque Ele nos ama, porque Ele nos pensou e nos chamou à vida. Existimos nos pensamentos e no amor de Deus. Existimos em toda a nossa realidade, não apenas na nossa "sombra". A nossa tranquilidade, a nossa esperança e a nossa paz fundamentam-se precisamente nisto:  em Deus, no seu pensamento e no seu amor, e não sobrevive unicamente uma "sombra" de nós mesmos, mas nele, no seu amor criador, nós somos conservados e introduzidos com toda a nossa vida, com todo o nosso ser na eternidade.
 
É o seu Amor que vence a morte e nos confere a eternidade, e é este amor ao qual chamamos "céu":  Deus é tão grande, a ponto de reservar um lugar também para nós. E o homem Jesus, que é ao mesmo tempo Deus, constitui para nós a garantia de que o ser-homem e o ser-Deus podem existir e viver eternamente um no outro. Isto quer dizer que de cada um de nós não continuará a existir somente uma parte que nos é, por assim dizer, arrebatada, enquanto outras caem em ruína; quer dizer principalmente que Deus conhece e ama o homem todo, o que nós somos. E Deus acolhe na sua eternidade aquilo que
 agora, na nossa vida feita de sofrimento e amor, de esperança, alegria e tristeza, cresce e se realiza. O homem todo, toda a sua vida é tomada por Deus e nele, purificada, recebe a eternidade. Caros amigos, penso que esta é uma verdade que nos deve encher de profunda alegria. O Cristianismo não anuncia somente uma qualquer salvação da alma num além indefinido, no qual tudo o que foi precioso e querido para nós neste mundo seria eliminado, mas promete a vida eterna, "a vida do mundo que há-de vir":  nada daquilo que nos é precioso e querido cairá em ruínas, mas encontrará a plenitude em Deus. Todos os fios de cabelo da nossa cabeça estão contados, disse certo dia Jesus (cf. Mt 10, 30). O mundo definitivo será o cumprimento também desta terra, como afirma São Paulo:  "E também ela [a criação] será libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus" (Rm 8, 21). Assim, compreende-se como o Cristianismo incute uma esperança forte num porvir luminoso e abre o caminho para a realização deste futuro. Precisamente como cristãos, nós somos chamados a edificar este mundo novo, a trabalhar a fim de que um dia se torne o "mundo de Deus", um mundo que há-de ultrapassar tudo aquilo que nós mesmos poderíamos construir. Em Maria Assunta ao Céu, plenamente partícipe da Ressurreição do Filho, nós contemplamos a realização da criatura humana segundo o "mundo de Deus". 
Oremos ao Senhor a fim de que nos faça compreender como toda a nossa vida é preciosa aos seus olhos; fortaleça a nossa fé na vida eterna; faça de nós, homens da esperança, que trabalham para construir um mundo aberto a Deus, homens repletos de alegria, que sabem vislumbrar a beleza do mundo futuro no meio dos afãs da vida quotidiana e nesta certeza vivem, acreditam e esperam.
 
Amém!


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Michel Maria